Ultimamente
não tem estado bem, perdeu algo que não pensava na possibilidade de perder
assim, tão rápido. Não chora, não acha que é preciso, mas anda com jeito de
quem tem uma espada cravada nas costas e uma faca no peito. Essa faca faz o
coração doer, como nunca tinha doído antes. Uma dor diferente, de tirar o ar,
de dar a impressão que não vive mais.
Ela
acha que está tudo bem, não se preocupa. Ele anda muito preocupado, com a
expressão preocupada. O carro anda devagar no engarrafamento. Ele não vê a hora
de sair dali. Ela também. Mas os motivos não são os mesmos. Desde aquele dia,
nunca foram os mesmos motivos para nada. Eles se olham. Ele sorri. Ela retribui.
Ele tem aquele um milésimo de felicidade antes de virar o rosto. Ela vira, como
se não fosse nada. Ele tem o olhar vago, olha para fora do carro. Ela
praticamente se esquece da presença dele.
Os
dias que passam são como meses. Como se nesse tempo difícil, a vida tivesse se
tornado uma tortura. Olha para fora, fita o mar como se dissesse “me devora
filho da puta, não consigo respirar aqui!” O mar sempre foi seu refúgio e a
praia seu firmamento. Quando estava nele, parecia que tinha voltado ao lugar de
onde veio e de onde preferia nunca ter saído. As coisas se tornam cada vez mais
difíceis assim.
Chegam
perto de onde ele vai ficar. Ele não sabe se diz ‘graças a Deus’ ou ‘que
merda’. Ela só pensa no que ficou de fazer depois que chegar. Ele acha que ela
não se importa. Ela já se importou? Ele não sabe, pensava que sabia. Ela
cumprimenta sorrindo. Ele quase chora, sempre adorou aquele sorriso e não era
mais dele.
Um
dia foi.
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