29 Jan 2013

o acaso do erro

Ele olha pra cima. Ela ri. Ele olha para ela. Ela nem se dá conta que ele está olhando, parece que a conversa é muito mais interessante que um olhar. Ele respira, quase como se tivesse respirando dentro de uma garrafa. Ela percebe algo estranho e pergunta se ele está bem. “To sim” ele fala e dá um sorriso, tão mentiroso quanto a resposta.

Ultimamente não tem estado bem, perdeu algo que não pensava na possibilidade de perder assim, tão rápido. Não chora, não acha que é preciso, mas anda com jeito de quem tem uma espada cravada nas costas e uma faca no peito. Essa faca faz o coração doer, como nunca tinha doído antes. Uma dor diferente, de tirar o ar, de dar a impressão que não vive mais.

Ela acha que está tudo bem, não se preocupa. Ele anda muito preocupado, com a expressão preocupada. O carro anda devagar no engarrafamento. Ele não vê a hora de sair dali. Ela também. Mas os motivos não são os mesmos. Desde aquele dia, nunca foram os mesmos motivos para nada. Eles se olham. Ele sorri. Ela retribui. Ele tem aquele um milésimo de felicidade antes de virar o rosto. Ela vira, como se não fosse nada. Ele tem o olhar vago, olha para fora do carro. Ela praticamente se esquece da presença dele.

Os dias que passam são como meses. Como se nesse tempo difícil, a vida tivesse se tornado uma tortura. Olha para fora, fita o mar como se dissesse “me devora filho da puta, não consigo respirar aqui!” O mar sempre foi seu refúgio e a praia seu firmamento. Quando estava nele, parecia que tinha voltado ao lugar de onde veio e de onde preferia nunca ter saído. As coisas se tornam cada vez mais difíceis assim.

Chegam perto de onde ele vai ficar. Ele não sabe se diz ‘graças a Deus’ ou ‘que merda’. Ela só pensa no que ficou de fazer depois que chegar. Ele acha que ela não se importa. Ela já se importou? Ele não sabe, pensava que sabia. Ela cumprimenta sorrindo. Ele quase chora, sempre adorou aquele sorriso e não era mais dele.

Um dia foi.

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